Comecei o ano me hospedando na casa de duas amigas, Poli e Sonia, para cuidar do gatinho delas enquanto elas viajavam pela América do Sul. Uma experiência e tanto. Eu teria de viver sozinho, sem a ajuda da minha mãe, fazer comida, compras, arrumar a casa e todas as outras coisas que eu nunca tinha me preocupado em fazer antes. Era um passo enorme para um simples filho único como eu, acostumado a ter tudo na mão. Para eu não morrer de solidão, a Gizelle resolveu embarcar nessa aventura comigo. Começava ali o primeiro dos quinze dias mais divertidos de nossas vidas.
Merlin é um gato arteiro.
Sempre foi. Desde que era filhotinho. Mimado pelas donas ele é acostumado a
pintar e bordar, mas se safar pelo simples fato de ser lindo.
Cheguei a casa das meninas
às 19h após um dia inteiro em um churrasco de família. Não tenho absolutamente
nada contra minha família, mas sabe como é, não é? Quando todo mundo se junta
sempre tem aquelas perguntas que fazem você querer arrancar um braço só para
ter algo para jogar neles. “E as namoradas?”, “E o trabalho?”, “mas isso dá
dinheiro?”, “e ai quando vai casar?”, entre outras perguntas incrivelmente
irritantes que temos de enfrentar.
Ao chegar ao local de minha
nova residência descobri que a Gi iria voltar para a casa dos pais. Motivo: ela
tinha médico no dia seguinte, era mais fácil ir de onde morava do que do nosso
novo endereço. Me mostrou algumas recomendações deixadas pelas meninas, os
bilhetes mostrando o nome das coisas e suas funcionalidades (Rádio: serve para
vocês dançarem até ficarem mortos; Geladeira: serve para guardar comida;
Microondas: serve para esquentar a comida, vide geladeira, aquelas tontas), e
foi embora. Então era isso, logo de primeira seria Merlin e eu. Nunca tinha
ficado sozinho com ele, nunca tinha tido um gato e não sabia o que fazer.
Principalmente para comer. “A vida é uma aventura”, pensei.
Depois de me acomodar em
meu novo quarto (o quarto que pertencia a Poli), resolvi sentar na varanda e
apreciar a vista. As meninas moram no décimo quinto andar, o que rende uma
paisagem e tanto, principalmente à noite. Ascendi um cigarro e fiquei ali,
parado, apenas olhando. Do lado de dentro o Merlin estava deitado, vivendo a
vida dele. Do lado de fora eu estava sentindo uma liberdade que jamais sentira
antes. Eu podia simplesmente sair de casa e ir para qualquer lugar sem ter de
dar satisfação a ninguém, apenas porque eu quis sair. Isso era maravilhoso.
Principalmente se você nunca teve isso.
Após terminar meu cigarro
voltei para dentro e resolvi fazer algo para comer. Eu não estava com fome, mas
fiquei com vontade de me aventurar na cozinha. Para mim era algo intenso. Mas o
que eu faria? Tinha de ser algo fácil. Qual a solução mais fácil que miojo? O
primo mais corpulento dele: o macarrão. Como era marinheiro de primeira viagem
resolvi pesquisar na internet uma receita de como cozinhar macarrão e fazer
molho para não errar. Aquela era a única coisa que eu tinha para comer, tinha
que dar certo.
Abri o Google e digite: como fazer macarrão?
Achei que tinha ficado muito
vago. Se eu queria realmente arrebentar em meu primeiro jantar, precisava ser
mais especifico. Apaguei e digitei novamente: como fazer um macarrão realmente gostoso?
Centenas de respostas
vieram. Abri as primeiras e comecei a ler. A primeira era difícil demais, tinha
alecrim, eu nem ao menos fazia ideia do que diabos era isso. Fechei. Abri a
segunda. Mais simples, apenas macarrão, alho e óleo. O molho aparentemente era
a parte mais difícil, tinha alho, cebola, tomate. Gente? Achei que era só abrir
a massa de tomate e despejar na panela e mexer, mexer, mexer até ficar
soltinho. A terceira receita não fazia o menor sentido então foquei na segunda.
Fui até a sala para
verificar se o Merlin estava bem. Ele acabara de acordar do seu milésimo
cochilo do dia e resolveu trançar minhas pernas. Não entendia nada de gato,
aquilo deveria significar que ele gostava da minha presença ali. Abaixei e
comecei a brincar com ele. Depois da minha tarefa de dar carinho 100%
concluída, peguei um dos CDs das meninas e coloquei para sonorizar esse meu
momento adulto. Sonia e Poli são iguais a mim no quesito “gastar todo o
dinheiro em livros, CDs e DVDs”, eram muitos, demorei uns dez minutos para
decidir o que ouvir. Por fim desisti e liguei meu celular no rádio. Coloquei o álbum
de uma banda chamada CHVRCHES (lê-se: Churches), dei uma boa suspirada e fui
para a cozinha.
Abri a geladeira e peguei
uma garrafa de vinho branco que estava aberta. Sempre tinha visto nos filmes
que as pessoas que moravam sozinhas cozinhavam com uma taça de vinho ao lado.
Claro que eu tinha de experimentar aquilo. Taça na mão, trilha sonora rolando,
gato deitado nos meus pés, hora de colocar as mãos na massa.
Coloquei o notebook na
bancada para ter fácil acesso à receita e comecei o trabalho: primeiro enchi a
panela de água e coloquei no fogo. A receita dizia para deixar a água
esquentando por 2 minutos e depois despejar óleo. O ruim de não estar na sua
própria cozinha é que você não sabe onde as coisas estão. Eu, muito esperto,
esqueci de procurar tudo o que eu precisaria antes de começar, o que tornou a
busca pelo óleo um verdadeiro game da cozinha. Merlin deveria estar
cronometrando exatamente os dois minutos, já que ele ficava me olhando enquanto
eu abria e fechava todas as portas. Por fim, desisti e resolvi utilizar azeite,
que fora a única coisa que eu encontrara. Já tinha lido muitas matérias dizendo
que azeite extra virgem fazia bem a saúde, então aquilo teria de servir e ainda
me manter vivo.
Segundo passo era colocar
sal na água e esperar até que ela começasse a ferver. Ok, até então tudo em
ordem. Enquanto aguardava a bendita entrar em estado de ebulição peguei as
coisas para preparar o molho. De maneira alguma eu iria picar alho, cebola e
tomate para fazer um simples molho. Peguei a panela, coloquei manteiga para não
grudar no fundo (isso era o único truque de cozinha que eu sabia) e despejei a
massa de tomate. Peguei uma colher e comecei a mexer. Meu azar foi não
encontrar uma colher de madeira, me fazendo retirá-la de tempos em tempos para evitar
que eu queimasse a mão. Quando a água começou a ferver peguei o macarrão e
despejei todo dentro da panela. Peguei uma colher de cabo maior e comecei a
mexer. Mexi... Mexi... Mexi... Mexi. A receita dizia que estaria pronto quando
ficasse “AL dente”. Assim que bati o olho nessa parte olhei para o Merlin e
exclamei:
“QUE PORRA É ALL DENTE
MERLIN?”, ele olhou para mim e soltou um “rraaaau”, como quem diz: “se você que
está cozinhando não sabe, o que dirá eu que sou apenas um gato. Se vira
humano!”. Perfeito! Meu sous chef era
tão inexperiente na cozinha quanto eu. Fiquei olhando para a massa até parecer
mais ou menos mole o bastante para ingerir. Ao mesmo tempo tinha de ficar de
olho no molho para que não passasse do ponto. Gente? Como as pessoas faziam
isso parecer tão fácil?
Peguei a taça de vinho, dei
um gole intenso e a enchi novamente. Depois que a massa parecia estar com uma
aparência comestível, desliguei o fogo de ambas as panelas. Agora eu precisava
escorrer. Mas, onde estava o escorredor? Lá vai eu procurar pelo escorredor em
todas as portas possíveis da cozinha. Abri uma: “não”. Abri outra: “não”. Abri
mais uma: “não”. Droga! Como eu iria escorrer a água da panela sem me queimar?
Tive de ir na raça. Peguei o Merlin e o coloquei na sala, para que não
respingasse água quente nele. O que não adiantou de nada, já que ele
provavelmente achou que era algum tipo de brincadeira e dois segundos após eu o
deixar são e salvo na sala, ele estava roçando no meu pé novamente. “PORQUE
MERLIN?”.
A tarefa seria mais difícil
do que eu pensei. Tinha de virar a panela lentamente dentro da pia a ponto de
que o macarrão ficasse intacto e apenas a água fosse embora. Ah! Mas eu
precisava tomar cuidado para não me queimar, não desperdiçar comida e não
derrubar no Merlin. Logo, colocaram um simples macarrão no level hard. Dei um
gole no vinho, peguei um pano para não queimar a mão com a panela quente e
comecei a virar. Fiquei tão concentrado que coloquei a língua para fora. Uma
gota de suor escorria pela minha testa. Até o Merlin estava aflito naquele
momento olhando para a situação atentamente. Um menor passo em falso e seriamos
dois feridos nessa tarefa.
“Ok
Bruno! Você está quase conseguindo, só mais um pouco”,
pensava comigo. Depois de algum tempo travado. Tarefa concluída com sucesso.
Água quente pia abaixo, macarrão belíssimo dentro da panela. Peguei uma vasilha
idêntica a que minha mãe usava para colocar macarrão, joguei um pouco de
orégano e pronto. Coloquei no prato, joguei molho em cima e parecia uma refeição
perfeita. Mas a pergunta que não queria calar: estava bom?
No melhor estilo “Ana Maria
Braga”, coloquei um pouco na boca e mastiguei lentamente para sentir o gosto da
minha obra prima. Vouilá! Estava uma
delicia. Peguei o Merlin no colo e comecei a rodar pela sala com ele em
comemoração. Aquele era o melhor momento da minha vida. Eu tinha feito macarrão
sem ajuda de ninguém, completamente sozinho. Me sentia tão feliz que poderia
gritar na sacada. Mas achei exagero demais. Peguei a taça de vinho, sentei na
sala, coloquei Friends e comecei a comer. Feliz. Não estava com fome, mas era
uma comida que eu mesmo tinha feito. Comeria a panela inteira de tanta
felicidade. Para alguns poderia ser apenas um macarrão. Para mim era uma
vitória. Uma prova de que eu era capaz de fazer qualquer coisa. Bastava
determinação. A partir daquele momento, eu tinha assinado minha liberdade.
Mais tarde, fui até a
cozinha para lavar louça. Comecei a sentir um cheiro forte vindo da lavanderia.
Merlin tinha acabado de batizar o chão com coco. “AAAAAAAH NÃO! PORRA GATO!
ACHEI QUE ESTÁVAMOS NOS DANDO BEM, QUAL A NECESSIDADE DISSO?”, Gritei.
Pentelho! Não conseguia acreditar que ele tinha feito aquilo. E o pior! Em
frente ao caralho da caixa de areia. Minha vontade era esfregar a cara dele na
caixa pra ele ver que era ali que tinha de fazer necessidades, não no chão.
Peguei ele na mão e o coloquei na sala. Derrubei uma cadeira para evitar que
viesse para a cena do crime novamente e comecei a limpar.
Como eu disse, quando você
está na casa dos outros é território totalmente desconhecido, não faz a menor
ideia de onde estão as coisas. Logo, eu não sabia que tinha uma pazinha para
catar as necessidades do gato, então, fiz da maneira clássica. Peguei uma
sacola e coloquei a mão dentro. Achei que não seria o suficiente e peguei outra
sacola para garantir que, se a primeira rasgasse, a segunda estaria ali para
manter minha mão longe do coco. Respirei fundo e abaixei para colher. A
sensação era horrível! Mesmo com a sacola dava para sentir a quentura do
negócio. Tentei não apertar demais para não amassar. Que situação! Gato
maldito! Que vontade de dar três tapas na cara dele para aprender a ter
dignidade.
Depois de colher o objeto
do chão tive de limpar para não ficar fedendo. Joguei desinfetante, sabão em
pó, alvejante, amaciante e tudo mais o que encontrei pela frente que pudesse
despejar no chão. Peguei uma vassoura e esfreguei. Amaldiçoando todas as sete
vidas do gato. “Bem feito por você ter
apenas sete vidas e não nove”, dizia.
Pelo canto do olho eu
conseguia vê-lo tentando pular pela barreira de cadeiras e desistindo algum
tempo depois. Só então que me passou pela cabeça: “Ele vai aprontar alguma
coisa na sala para chamar a minha atenção”. Senti vontade de chorar. Depois de
limpar tudo, troquei a areia do pentelho para que não tivesse mais nenhuma
desculpa para cagar no chão novamente. Retirei a barreira de cadeiras e fui até
o banheiro tomar um banho. Depois de tanto trabalho eu estava suando que nem um
porco. Estávamos no primeiro dia de janeiro e o calor estava impossível.
Após o banho voltei para a
sala e sentei no sofá para assistir algum filme. O Merlin parecia saber que
tinha aprontado, começou a se aproximar lentamente. Cada hora que eu olhava ele
estava mais perto. Comecei a achar aquilo mega engraçado. Gato pentelho! Não
dava para ficar bravo com ele por muito tempo. Quando eu percebi, ele estava
deitado em cima do teclado do notebook que estava aberto ao meu lado no sofá.
Me olhava com uma cara de desconfiado, sem saber ao certo qual seria o meu
próximo movimento. Peguei ele nos braços, o apertei e fiz carinho. Ele fechou
os olhos e morreu por alguns minutos. No fim das contas ele era um bom
companheiro. Para uma primeira noite, havíamos tido aventuras demais. Acabei
dormindo no meio do filme com ele nos braços.
Quando acordei ele estava
deitado ao lado da estante dormindo. Desliguei a TV, escovei os dentes e fui
para a cama. Meus dias com o Merlin seriam uma verdadeira aventura e eu
precisava estar mais do que descansado.

















