Sábado é um dia típico, os seres humanos solteiros de ambos os sexos se juntam em bandos para se exibir, a fim de conseguirem a atenção do sexo oposto, ou do mesmo sexo. Alguns bandos possuem líder, que decide onde todos devem ir e como devem se comportar, outros são mistos e contam com a presença de seres de ambos os sexos, mas todos estão sob a mesma pressão social: a pegação.
Foi-se o tempo onde os bandos saiam apenas para se divertir, atualmente, se você não beija na boca você é rebaixado três níveis até voltar a ser estagiário. Seu status social e de respeito é definido pela quantidade de saliva que você consegue trocar em uma única noite, ganha pontos extras quem conseguir finalizar com trocas de fluidos corporais, em outras palavras, coito.
Claro, estamos falando dos seres humanos de gênero masculino, as regras mudam completamente se você pertencer ao grupo feminino. Aparentemente na sociedade moderna, a evolução ideológica é feita cuidadosamente para que algumas coisas das eras passadas se mantenham fortes e consistentes. É o caso de toda a restrição em cima da liberdade sexual do grupo feminino. Não pode beijar mais de um macho, não pode copular logo de cara, desrespeite e será a vadia do grupo.
Mas esse texto é para demonstrar como os machos conseguem agir da mesma maneira, independente de se sentirem atraídos por fêmeas ou por outros machos. No último sábado resolvi sair com alguns amigos até uma balada na região da Augusta. O bar, que continha diversas opções de entretenimento como sinuca, pebolim, fliperama e uma pista de dança, me pareceu reunir uma grande quantidade de jovens seres humanos que poderíamos encaixar no grupo de pessoas "descoladas".
Como ultimamente faço parte do grupo de pessoas que não sabem mais se portar em espaços como este, saí para fumar um cigarro e fazer uma ligação. Enquanto tragava meu veneno preferido, parei para observar os grupos que estavam reunidos. Fumar é bem similar ao exercício feminino de ir ao banheiro em bandos, é muito difícil ver pessoas sozinhas. Quando um vai, todos vão. Como eu era o único fumante do meu grupo, lá estava eu falando ao telefone, fumando e observando. Um grupo de meninas tentava tirar uma "selfie" (auto retrato feito com o auxilio de aparelhos de telefonia móvel que possuem câmeras fotográficas embutidas), outro grupo composto apenas por rapazes conversava sobre a noite anterior, da qual alguém deu perda total e simplesmente estragou toda a diversão dos outros, outro grupo, dessa vez misto, tentava arquitetar um encontro às cegas para um dos membros que há tempos não saia com ninguém, duas meninas conversavam e fumavam e, ao meu lado, dois rapazes olhavam diretamente para elas.
As duas eram bem bonitas, loiras, cabelos repicados estilo Joan Jett, usavam saias bem justas, salto alto e blusinhas que com certeza foi modificada por elas mesmas para parecer original. Os dois eram estranhos, um era barbudo e o outro muito magro. Elas cochichavam sobre o bar, eles sobre elas.
Elas: - gostou daqui amiga?
- Gostei. A decoração, os jogos, a música, só poderia ser mais barato.
Eles: - E ai? Pegava?
- Ah, dependendo da hora.
- Ou do nível do álcool.
Enquanto terminava meu cigarro fiquei refletindo sobre a conversa e comecei a lembrar que já tivera diversas com meus amigos. O que me levou a perceber que homens são iguais, o que muda é a atração sexual. Certo dia estava com um amigo, que vou chamar de Ronaldo, e estávamos olhando as pessoas, esperando que algum nos agradasse (o que me lembra bastante de quando você vai à feira e olha se as verduras estão maduras o suficiente para comer), a conversa foi idêntica:
Eu: Olha ali, aqueles ali.
Ele: Pegava?
Eu: Dependendo a hora.
Ele: Ou se já rolou tequila.
~risadas~

Em que ponto da vida somos treinados para ser tão malvados assim? Da mesma maneira que julgamos, com certeza estamos sendo julgados por outros grupos. Quando o álcool passou a definir se você vai ou não beijar tal pessoa? E a atração? A química? Onde fica essa história?
Isso me fez refletir nos últimos dias. Estamos vivendo em uma era em que o romance está cada vez mais extinto e o desapego anda se difundindo entre as diversas classes. O status entre os machos se limita em ser o alfa do grupo, o comedor, o garanhão. Não existem mais primeiros encontros sem a obrigação sexual. Você não pode simplesmente sair por diversão, precisa beijar alguém. Esse peso social intensifica muito mais se pertencer ao grupo masculino, não entendo como a sociedade espera que você saia por aí metendo em todo mundo. Já passei da idade, né? Existe mesmo um problema em sair apenas por sair? Eu preciso mesmo ficar com alguém? Me mostre quantas vidas isso pode salvar, quantas árvores deixarão de ser cortadas, quantos órfãos serão adotados, quantas famílias serão abrigadas, enfim, me mostre a verdadeira importância disso para a sociedade que eu farei com toda certeza.
Não quero ser piegas, ou hipócrita, mas depois de algum tempo você cansa definitivamente de agir como adolescente e começa a pensar na vida como algo a mais do que simplesmente beijar alguém em uma noite de bebedeira.










