quarta-feira, 28 de maio de 2014

Desabafo: debaixo dos caracóis dos seus cabelos uma ova

Você sabe o que eu fiz à 0h45 do dia 27 de maio de 2014? Assisti vídeos de “como pentear cabelos ondulados”. Daí você me pergunta: porque você estava assistindo isso menino? A resposta: sexta-feira eu tenho uma festa, por esse motivo, preciso treinar o que fazer com esse ninho de pomba bêbada que eu tenho na cabeça. A ideia era ir fantasiado de caçador, mas pelo andar da carruagem, vou acabar adotando o visual Monica Gellar na décima temporada de Friends mesmo.

Antes de prosseguir, gostaria de salientar que esse texto vai diretamente para a minha pastinha de provas de que os roteiristas cagaram totalmente na concepção do meu personagem, o que me dará o direito de fazer a diva arrogante [beijos Floor Jansen] e gritar com várias pessoas, além de pedir para não encostarem em mim e tomar os celulares que fotografarem com flash.

Voltando ao assunto do post, em meio aos muitos vídeos com dicas de escova, chapinha, cremes, ceras e etc. Pensei: eu deveria contar sobre a experiência de ter um cabelo ondulado.

Sim, cabelo onduladinho e cacheado é um charme, mas fique sabendo que esse sexy appeal do “cabelo anjinho style” vem com um preço muito alto a ser pago [e bota alto nisso, já que custear um cabelo tá quase igual a manter um filho da escola particular]. Se qualquer dia você enjoar do perucão, bom, problema seu, não importa o que você faça seu cabelo nunca vai mudar. Sua única solução é raspar.

Você vê um corte novo e pensa: legal, vou tentar. Esqueça! Não vai dar certo. Passe o secador e cinco minutos depois o cabelo está ondulado, tente uma pasta e ele ondula, gel e ele encrespa, um simples ventinho e ele vira um pandemônio. Quando vemos aquele pessoal com um cabelo cacheado bem estiloso, poderoso e sensual, o que não sabemos é que os bastidores provavelmente foram cansativos demais. Sem contar nos muitos dinheiros gastos para deixar as ondinhas bonitinhas e longe de qualquer destruição apocalíptica iminente. 

Pior é quando você consegue deixar ele bonitinho e sempre aparece um idiota com uma mão maldita e cheia de dedos falando: “ai como o seu cabelo é bonitinho” e bagunça todo o trabalho que você levou horas e mais horas para fazer. Qual é o tesão que as pessoas tem em enfiar a mão no cabelo de alguém? Que saco! Isso é invasão de privacidade. Eu me sinto agredido, estuprado, violado. Sem contar que o cabelo provavelmente ficou uma bosta de novo.


Ter o cabelo ondulado não é uma dádiva. Me desculpem Roberto e Erasmo, mas "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos" meu cu, ok? [Tá eu sei que a música tem toda uma história macabra de ditadura e exílio por trás, não preciso de aulinhas de histórias, bjs]. É o famoso “pimenta nos olhos dos outros é refresco”.

Então quando você vir alguém com esse tipo de cabelo pense duas vezes antes de dizer: “queria que meu cabelo fosse assim”, porque acredite em mim, você não queria não. Lembre-se desse desabafo.

Mesmo assim, com toda a dificuldade, trabalho e lágrimas de nervoso, eu olho para os meus cachinhos e tenho orgulho deles <3.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Dona Adélia, uma senhora que enxerga o coração das pessoas

Esse texto é para contar um pouco sobre uma das experiências mais deliciosas que eu já tive na vida. Há algum tempo, eu prestava serviço voluntário em uma casa de repouso aqui perto de onde moro. Meu trabalho consistia em fazer companhia aos idosos residentes, que já não recebiam visita dos familiares com tanta frequência. Foi nessa missão que conheci (e me apaixonei) pela Dona Adélia, uma senhora de 82 anos, baixinha, cabelos brancos na altura dos ombros que ela tinha orgulho de escovar e dizer que sempre foram o que mais gostava em si mesma.

Dona Adélia sempre me contava história maravilhosas, algumas eu duvidava da veracidade e outras me tocavam muito. Certo dia, ela puxou assunto sobre sexualidade e eu vou contar como foi esse diálogo maravilhoso que mudou minha maneira de enxergar o mundo:

Dona Adélia: eu vi no jornal que um rapaz apanhou.

Eu: sério? A senhora sabe me dizer onde foi isso?

Dona Adélia: ah, foi naquela rua que os jovens vão muito, como chama mesmo?

Eu: augusta?

Dona Adélia: isso... Essa mesmo. Esse mundo está cada vez mais violento. Você toma cuidado por onde anda, não é?

Eu: tomo sim. Evito andar sozinho depois de certa hora e quando preciso, só ando por lugares que eu já conheço.

Dona Adélia: muito bem. O repórter disse que ele apanhou porque era gay.

Eu: pois é, o mundo está assim agora, se você é gay apanha.

Dona Adélia: por isso meu filho, tome muito cuidado.

Comecei a encarar ela. Ela sorriu e disse: eu sempre soube que você era diferente, esses dias eu vi você olhando para um outro rapaz que vem sempre aqui.

Eu, por alguma razão, totalmente sem graça, sorri e disse: foi por isso que a senhora começou a falar sobre o menino que apanhou?

Dona Adélia: foi. Eu queria saber se não estava completamente louca.

Eu: então a senhora não tem problema com isso?

Dona Adélia: eu? Não! O mundo está diferente de quando eu tinha a sua idade, antes eu ficaria horrorizada e tentaria fazer você parar com isso.

Eu: algumas pessoas ainda pensam assim, é triste.

Dona Adélia: você parece triste, o que houve?

Eu: nada não. É que esse preconceito todo me deixa um pouco pra baixo. Acredita que eu já ouvi até que não iria pro céu.

Dona Adélia: porque você não iria para o céu? Aguentar uma velha maluca de 80 anos que só sabe tagarelar sobre a vida, é mérito o suficiente para conseguir um quartinho lá em cima.

Eu: então a senhora não acha que eu vou para o inferno só por gostar de outros meninos?

Dona Adélia: filho, você é bondoso, atencioso e tem uma compaixão que ninguém vê atualmente. Acredito que isso é crédito para chegar aos céus.

Eu: bom, então acho que eu vou para o céu.

Dona Adélia: eu acho bom você ir mesmo, porque não quero ficar lá sozinha.

Eu, já querendo chorar: eu teria de visitar minha avó primeiro, mas a senhora ficaria triste se eu fosse em seguida?

Dona Adélia: depois me traga uma foto da sua avó, vou memorizar e procurar por ela quando eu chegar lá.

Eu: vocês vão se dar muito bem. Eu não a conheci, mas acredito que ela seja maravilhosa, assim como a senhora.

Dona Adélia: vamos esperar por você com bolo e café.

Eu: de cenoura, por favor. Mas será que tem no céu?

Dona Adélia: se não tiver, eles vão ouvir algumas reclamações.


E foi isso. Naquele momento eu percebi que uma senhora de 82 anos, era muito mais mente aberta do que a sociedade atual. Uma mulher que estava limitada a uma casa de repouso, conseguia enxergar as pessoas a partir do que elas realmente eram.

Dona Adélia já faleceu. Foi encontrar minha avó. As vezes minha orelha queima, tenho certeza que são elas falando de mim.