segunda-feira, 12 de maio de 2014

Dona Adélia, uma senhora que enxerga o coração das pessoas

Esse texto é para contar um pouco sobre uma das experiências mais deliciosas que eu já tive na vida. Há algum tempo, eu prestava serviço voluntário em uma casa de repouso aqui perto de onde moro. Meu trabalho consistia em fazer companhia aos idosos residentes, que já não recebiam visita dos familiares com tanta frequência. Foi nessa missão que conheci (e me apaixonei) pela Dona Adélia, uma senhora de 82 anos, baixinha, cabelos brancos na altura dos ombros que ela tinha orgulho de escovar e dizer que sempre foram o que mais gostava em si mesma.

Dona Adélia sempre me contava história maravilhosas, algumas eu duvidava da veracidade e outras me tocavam muito. Certo dia, ela puxou assunto sobre sexualidade e eu vou contar como foi esse diálogo maravilhoso que mudou minha maneira de enxergar o mundo:

Dona Adélia: eu vi no jornal que um rapaz apanhou.

Eu: sério? A senhora sabe me dizer onde foi isso?

Dona Adélia: ah, foi naquela rua que os jovens vão muito, como chama mesmo?

Eu: augusta?

Dona Adélia: isso... Essa mesmo. Esse mundo está cada vez mais violento. Você toma cuidado por onde anda, não é?

Eu: tomo sim. Evito andar sozinho depois de certa hora e quando preciso, só ando por lugares que eu já conheço.

Dona Adélia: muito bem. O repórter disse que ele apanhou porque era gay.

Eu: pois é, o mundo está assim agora, se você é gay apanha.

Dona Adélia: por isso meu filho, tome muito cuidado.

Comecei a encarar ela. Ela sorriu e disse: eu sempre soube que você era diferente, esses dias eu vi você olhando para um outro rapaz que vem sempre aqui.

Eu, por alguma razão, totalmente sem graça, sorri e disse: foi por isso que a senhora começou a falar sobre o menino que apanhou?

Dona Adélia: foi. Eu queria saber se não estava completamente louca.

Eu: então a senhora não tem problema com isso?

Dona Adélia: eu? Não! O mundo está diferente de quando eu tinha a sua idade, antes eu ficaria horrorizada e tentaria fazer você parar com isso.

Eu: algumas pessoas ainda pensam assim, é triste.

Dona Adélia: você parece triste, o que houve?

Eu: nada não. É que esse preconceito todo me deixa um pouco pra baixo. Acredita que eu já ouvi até que não iria pro céu.

Dona Adélia: porque você não iria para o céu? Aguentar uma velha maluca de 80 anos que só sabe tagarelar sobre a vida, é mérito o suficiente para conseguir um quartinho lá em cima.

Eu: então a senhora não acha que eu vou para o inferno só por gostar de outros meninos?

Dona Adélia: filho, você é bondoso, atencioso e tem uma compaixão que ninguém vê atualmente. Acredito que isso é crédito para chegar aos céus.

Eu: bom, então acho que eu vou para o céu.

Dona Adélia: eu acho bom você ir mesmo, porque não quero ficar lá sozinha.

Eu, já querendo chorar: eu teria de visitar minha avó primeiro, mas a senhora ficaria triste se eu fosse em seguida?

Dona Adélia: depois me traga uma foto da sua avó, vou memorizar e procurar por ela quando eu chegar lá.

Eu: vocês vão se dar muito bem. Eu não a conheci, mas acredito que ela seja maravilhosa, assim como a senhora.

Dona Adélia: vamos esperar por você com bolo e café.

Eu: de cenoura, por favor. Mas será que tem no céu?

Dona Adélia: se não tiver, eles vão ouvir algumas reclamações.


E foi isso. Naquele momento eu percebi que uma senhora de 82 anos, era muito mais mente aberta do que a sociedade atual. Uma mulher que estava limitada a uma casa de repouso, conseguia enxergar as pessoas a partir do que elas realmente eram.

Dona Adélia já faleceu. Foi encontrar minha avó. As vezes minha orelha queima, tenho certeza que são elas falando de mim.

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